quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Qualquer estrela

Vou convocar todas as estrelas,
das mais belas às vagabundas,
todas com seu brilho
rico, tênue ou vulgar,
o céu mais azul,
de azul dolorido
em meio a parabólicas.
satélites, dores
e a gordura da lua

A lua barriguda
tecida num pasto vivo,
vivo de ardume, cardume e alma
pleno de estrelas vadias
o cintilar arrumado
em um cinto que rodeia
desordenado
o teu corpo

Nilson Monteiro, jornalista.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Do Pequeno Príncipe...

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

clarice lispector disse...

Cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Um suspiro.

Tenho tanto para escrever. Acho que não vou escrever nada. Estou cansada, exausta.
O que me preocupa, disso tudo, é que não estou tendo tempo para mim. Tempo sempre foi uma coisa tão importante, algo muito maior que a vida, que o ser. Um desabafo em meio ao tumulto. Solidão, pura e simples.
Hoje chorei. Algumas das minhas vaidades sucumbiram, algumas das minhas paixões morreram e o que eu sempre neguei, estou aceitando. O mundo está perdido.

t.s.eliot disse...

A poor poet imitates,
a good poet steals.

sábado, 10 de novembro de 2007

ana maria machado disse...

Não tenho pressa de publicar.
O importante é escrever.
Uma hora amadurece.
Posso estar enganada, mas
acho que tem muito mais
bobagem publicada do que
genialidade não-publicada.

Combatendo a solidão.

Ler. Ler é importante. Continue acompanhando, prometo falar sobre uma variável do tema que você ainda não conhece. Tá, eu sei que o seu professor fala disso toda aula e que os teus colegas te cobram. Até a sua mãe? Confesso que ela é esperta, até por que mães são ótimas referências de vida e geralmente entendem de tudo, de livros á dor de barriga – que espero não ser o seu caso.
Mas não quero repetir o jargão de que a leitura muda as pessoas ou talvez leitura é conhecimento. Todo mundo já sabe disso. Imagino que até o seu cachorro Rex – garoto esperto! Pretendo ir além. Acompanhei alguns encontros do Curitiba Literária, evento promovido pela Fundação Cultural de Curitiba, e um debate me chamou a atenção. Eric Nepomuceno – jornalista e escritor brasileiro, e David Toscana - escritor mexicano, falavam de leitura.
Em suma, quem lê pela primeira vez não entende a grandeza de um livro. Nele está expressa, muitas vezes de forma oculta, a personalidade do autor. A experiência de vida traduzida em arte. A grandeza de uma obra e o sucesso de um autor é isso, seduzir pela essência, humanização, pouco importando a fantasia. E o papel de um bom leitor é descobrir os indícios de uma história oculta dentro da história transcrita, que, geralmente, é muito mais interessante.
A palavra é protagonista diante do personagem. Que frase bonita, profética! A palavra estimula os sentidos. Aqui cabe uma observação feita por Toscana, que a experiência de ler é muito mais válida que a experiência de viver. E completa, entre risos, menos literatura erótica, apesar de que um conto bem escrito te faça ver estrelas muito melhor que o namorado. E esse prazer só é gerado através da leitura.
O livro também é memória coletiva. Tudo que é escrito, produzido vira material de pesquisa para futuros historiadores. Poderemos localizar informações precisas daqui uma década, ou duas, talvez daqui um século, sobre o que fizemos no dia oito de novembro de 2007, as 23h47. Mas do que descobrir que você escutava Tchaikovsky – não conhece? Existem ótimos livros para consulta! – o cara vai poder dizer seu sentimento diante da carga dramática expressa na música.
Impressionante nada. Para sentir a guerra não basta ver as fotos ou ler relatos. Os contos, os livros descrevem a sensação, e por isso a necessidade de ler. Ler é conhecimento! Sei que prometi não dizer, foi irresistível, acredite.
O cansaço toma conta dos seus olhos, pressinto. Finalizo, então: A leitura ocupa o espaço da solidão. Um bom livro pode ser seu melhor amigo, seu confidente, a tradução dos seus sentimentos. Cria identificação ou estranhamento, traz experiências parecidas pelas já vividas por você e que te fazem lembrar bons tempos. A imaginação e a criatividade afloram.
O relógio deve ser seu aliado. A falta de tempo é desculpa dos fracos. Seu filho precisa de atenção, mas como é gostoso poder colocá-lo para dormir escutando uma bela história e perpetuando a tradição, que de fato vem de casa, da leitura.

Entre o dread e o vermelho.

Fotos da brilhante Sabrina Magalhães.

Um quase cheiro de açafrão permeava aquela Ópera de Arame, as vinte e dezenove do dia quatro de novembro. Sobre o palco, a imagem de uma borboleta – traçada entre o azul e o vermelho – tomava conta de meio céu, disputado com esboços desfigurados de personagens futuristas reforçados por sua visão iluminada em tons entre branco e caramelo. O cenário, logo abaixo, era composto por instrumentos nada convencionais.
O gracejo dissonante da figura disforme toma vida e anda pelo palco em marcha marcada pela batida do bumbo, fazendo a platéia, que até então urrava em excitação, parar e permanecer, por um breve instante, em silêncio. Um tom de quase respeito solene, diante da criatura, abismou alguns e levou outros ao delírio. O espetáculo iniciava.
A fusão entre a diversidade da percussão resultava um rito afro, um canto indígena – uma mistura sem nome e com ritmo desconhecido. O Cordel do Fogo Encantado surge, então, entre o manto negro que ocupava a lateral do palco.
Cordel como sinônimo de história. Fogo como elemento representativo da existência de um povo, a intenção musical e poética dos seus personagens, marcado, principalmente, por sua inconstância. A visão profética entre o céu e a terra define o Encantado. Tudo isso da voz de Lira Paes, o vocalista.
A colorida mistura de expectadores lotou a frente do palco. O transe psicótico provocado pela música era o ritmo da dança de algumas mulheres com seus vestidos estampados e cabelos de dread. Um vai-e-vem lento contorcia as formas de uma ruiva baixinha. Entre elas, um grupo de rapazes pulava expressando deleite.
O fogo vivo toma forma no malabarismo teatral de Lira e evoca: Perto de você, Dentro da tua história, Eu carrego as paisagens, E as miragens do além, Digo que quebro as telhas,Da nossa grande construção, Pra durmir na amplidão. Os olhos ameaçadoramente abertos do cantor e a expressão corporal desenvolvida durante o canto de poesia são os elementos principais da mística apresentação. O espetáculo, como descrito pelo grupo.
O poeta popular representa o povo, dá voz a reclames, angústias e esperanças, tudo pela literatura de cordel. No início, pequenos poemas e historinhas compunham 40min de apresentação, com mais 10 de música. Com o tempo, o Cordel do Fogo Encantado musicou os versos antes recitados e compôs a cena de tragicomédia, apresentada pelo país em eventos de literatura, principalmente, como conta Emerson Calado, percussão e voz.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. A platéia declama, com furor, a pedido de Lira, alguns versos de Dos Três Mal-amados – Palavras de Joaquim, de João Cabral de Melo Neto. Os tons de voz fazem brilhar os olhos do vocalista, que comenta, depois, que esse é o objetivo do espetáculo. Levar a arte ao público de forma que o encante e o faça conhecer os grandes nomes da literatura brasileira. Pois o cordel é para ser ouvido e visto, sentido. Debulhar o trigo; Recolher cada bago do trigo; Forjar no trigo o milagre do pão; E se fartar de pão / Decepar a cana; Recolher a garapa da cana; Roubar da cana a doçura do mel; Se lambuzar de mel / Afagar a terra; Conhecer os desejos da terra; Cio da terra, a propícia estação; E fecundar o chão. Cantarola o público, algumas músicas depois, os versos de O Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque, afirmando o objetivo do grupo.

Luzes amarelas brandam a música e os ruídos da rua, verdadeira paixão de Lira, espalham-se pela multidão. A denúncia vem a tona. Religião – Os homens são anjos caídos que Deus mandou para Terra porque botaram defeito na criação do mundo. Aqui, começaram a inventar coisas, a imitar Deus. E Deus ficou zangado, mandou muita chuva e muito fogo, eu vi de perto a sua raiva sacra, pois foram sete dias de trabalho intenso, a ignorância e acomodação do povo – Sou palhaço do circo sem futuro; Um sorriso pintado a noite inteira; O cinema do fogo; Numa tarde embalada de poeira, a política – A matadeira vem chegando; no alto da favela; no balanço da justiça; do seu criador / Salitre, pólvora, enxofre, chumbo / O banquete da terra; Teatro do Céu; O banquete da terra; Teatro do Céu / Diz aí quem vem lá, O velho soldado; O que trás no seu peito?; A vida e a morte / E o que trás na cabeça?; A matadeira; E o que veio falar?; Fogo.

Mistério. A formação teatral de Lira cria o clima intimista. Seus gestos completam a música e convidam o público para o novo. A direita jovens jogam capoeira e a esquerda um homem de trinta e poucos anos faz gestos de percussão, talvez inspirado por Emerson Calado e sua influência New Metal. O ritmo toma tom com a literatura, o rezado, o toré, o blues de Robert Johnson, o samba de coco, o rito afro e a mística indígena, completa Nego Henrique, percussionista.
Foram embora. E voltaram, entre reverências da platéia, que gritava em sinal de adoração. Cumpriram um, entre os oito show programados para o mês.